IA
É o fim do conteúdo criado por humanos? A IA já produz mais conteúdos do que nós.
Abrir o navegador hoje é um gesto quase automático: digitar uma dúvida, rolar o feed, clicar no primeiro resultado que parece confiável. O que não é nada automático é admitir que, silenciosamente, os conteúdos deixaram de ser majoritariamente escritos por pessoas.
Gerson Diniz 14 de novembro de 2025 5 min
Segundo o estudo “Quantifying AI-Generated Articles on the Web”, da Graphite, em novembro de 2024 a quantidade de artigos gerados por IA publicados na web ultrapassou a de artigos escritos por humanos, em uma amostra de 65 mil textos coletados do Common Crawl e analisados entre 2020 e 2025. A cena banal da pesquisa no Google esconde um fato histórico: boa parte do que lemos já não é fruto direto de alguém digitando, mas de sistemas completando frases em nosso lugar. O mito que ainda organiza o discurso de mercado é simples: “não importa quem escreveu, importa se o conteúdo é bom”. Em um mundo em que a IA é capaz de imitar estilo, corrigir gramática e citar fontes, essa frase soa razoável. Mas ela ignora duas perguntas incômodas: bom para quem? e a que custo cognitivo e simbólico?
Da era dos blogs à era do botão “gerar” A história recente da web é também a história de quem escreve para ela. A primeira fase foi marcada por blogs, fóruns e páginas pessoais: a escrita era amadora, desigual, mas claramente humana. A seguir vieram as “fazendas de conteúdo”, otimizadas para SEO, que já tratavam o texto como recurso escalável, mesmo antes da IA generativa. O ponto de inflexão acontece com o lançamento de modelos conversacionais em larga escala, a partir de 2022. O estudo da Graphite mostra um salto abrupto na presença de artigos gerados por IA após essa data, chegando a cerca de 39% em apenas doze meses, e ultrapassando a produção humana dois anos depois. A partir daí, a curva não explode ao infinito: ela estabiliza. Desde meados de 2024, a proporção de artigos inteiramente gerados por IA parece ter atingido um platô. Em paralelo, outra pesquisa amplia o quadro: a Ahrefs analisou 900 mil páginas novas em abril de 2025 e descobriu que 74,2% continham algum grau de conteúdo gerado por IA. Apenas 25,8% eram totalmente humanas, e 2,5% puramente IA; todo o resto era híbrido, misturando trechos humanos e sintéticos. Portanto, não é só “escrita por máquinas” ou “escrita por humanos”. Ela é, cada vez mais, um espaço de co-autoria, em que já não sabemos bem onde termina o gesto humano e começa a automatização.
O que acontece com a nossa cabeça quando terceirizamos o texto
Na psicologia cognitiva, há um conceito que ajuda a ler esse cenário: cognitive offloading — a tendência de delegar processos mentais a ferramentas externas (cadernos, motores de busca, agora agentes de IA). Michael Gerlich, em estudo publicado em 2025 com centenas de participantes, mostra que maior uso de ferramentas de IA se associa a menores escores de pensamento crítico, com a “terceirização” cognitiva funcionando como mediadora dessa relação. Não se trata de demonizar a ferramenta, mas de reconhecer um efeito: quanto mais a IA antecipa o que diríamos, mais somos tentados a aceitar a primeira formulação plausível, em vez de sustentar o desconforto de pensar. Há ganhos de eficiência, mas também risco de “preguiça cognitiva” se não houver contrapesos educativos e culturais. O relatório Digital News Report, do Reuters Institute, indica que mais da metade dos entrevistados nos EUA e quase dois terços no Reino Unido se dizem desconfortáveis com notícias produzidas principalmente por IA, sobretudo em temas sensíveis como política. Outra sondagem mostra que a maioria das pessoas sente que confia menos no que lê online e que se torna cada vez mais difícil distinguir conteúdo humano de conteúdo sintético.
Ou seja: quanto mais a IA escreve, mais ambígua se torna a nossa experiência de leitura.
O que isso significa para quem cria, projeta e lê
Para quem trabalha com conteúdo, marketing e design, o dado mais inquietante não é que a IA escreva “bem”. É que, quando todos têm acesso ao mesmo arsenal de modelos, o volume deixa de ser diferencial. Se quase três quartos das novas páginas já incluem IA em algum grau, como mostra o estudo da Ahrefs, competir em “mais posts”, “mais variações”, “mais palavras-chave” é disputar espaço num ruído crescente. A escassez se desloca: já não está na capacidade de produzir texto, mas na capacidade de produzir contexto, experiência e juízo. Algumas implicações práticas:
Para marcas e criadores
A vantagem competitiva migra da produção para a curadoria. A IA pode gerar rascunhos, sumarizar pesquisas, propor estruturas. O trabalho humano passa a ser decidir o que merece ser dito, o que precisa ser silenciado e onde é necessário expor conflito, dúvida, bastidor,tudo aquilo que modelos tendem a suavizar.
Para estrategistas de conteúdo e SEO
Em vez de perguntar “como publicar mais rápido?”, talvez a pergunta mais contemporânea seja “o que só pode ser dito a partir da nossa experiência e responsabilidade?”. Ferramentas de detecção de conteúdo sintético indicam que os sistemas de busca sabem medir, ainda que imperfeitamente, traços de automatização em larga escala. No longo prazo, páginas genéricas tendem a ser empurradas para o fundo.
**Para designers de produto e experiência **
Há um desafio de interface: como desenhar superfícies digitais que ajudem a sinalizar autoria, processos de revisão, graus de automatização? Em um ecossistema de desconfiança, rótulos como “gerado com IA e revisado por X” podem deixar de ser ameaça reputacional para se tornar um componente de transparência mínima.
Para leitores e cidadãos
Escolher o que ler, de quem ler e por quanto tempo ler é um ato político-cognitivo. Em um ambiente textual saturado por IA, a atenção se torna talvez o último recurso verdadeiramente humano: é ela que legitima, premia, corrige ou ignora.
Se a IA já escreve a maior parte da internet, nosso trabalho não é competir em velocidade ou volume, mas em lucidez. O que nos torna relevantes não é a capacidade de apertar o botão “gerar”, e sim a coragem de assumir autoria sobre o que escolhemos publicar e, sobretudo, sobre o que escolhemos deixar em branco.

Gerson Diniz
Sou cofundador do Autoclipper, uma plataforma de inteligência artificial para edição de vídeo que transforma vídeos longos em conteúdo otimizado para redes sociais. Desenvolvemos uma tecnologia que une automação e criatividade, apoiando criadores, agências e empresas na escalada de sua presença digital com qualidade e eficiência.
